11 de Julho de 2026 • por Fabio Pires

123 Horas Correndo Para Nada?

A Backyard Ultra é, por essência, um esporte cruel. O formato inventado por Lazarus Lake não testa apenas a capacidade cardiovascular ou a força das pernas; ele destrói a mente humana ao impor uma rotina interminável de loops de 6,706 km a cada hora, até que reste apenas um corredor de pé.

Mas o que acontece quando o corpo humano supera todos os limites imagináveis, quebra o recorde mundial oficial, e depois vê toda essa jornada ser apagada por causa de um detalhe técnico?

Foi exatamente isso o que aconteceu no Biotropika Backyard Ultra, na Rússia. Três atletas correram além do recorde mundial de 119 horas estabelecido pelo australiano Phil Gore. O russo Dmitry Klimov atingiu a marca inacreditável de 123 voltas (824,8 km), enquanto Vera Chekalina pulverizou o recorde mundial feminino com 96 voltas (643,7 km).

No entanto, o mundo da Backyard Ultra foi pego de surpresa: Lazarus Lake cancelou o evento inteiro e invalidou todos os recordes.

Entenda a seguir, de forma cronológica, como o maior feito da história do Backyard Ultra se transformou no maior escândalo do esporte.

O Feito Inacreditável

Tudo começou com uma disputa em solo russo. À medida que o relógio avançava e os dias se acumulavam, três atletas locais se recusavam a desistir. O cansaço extremo deu lugar a um estado de transe que levou Dmitry Klimov e seus companheiros a ultrapassarem a marca histórica de 119 horas do australiano Phil Gore.

Para se ter uma ideia do tamanho do feito, Dmitry correu por mais de cinco dias consecutivos, acumulando uma distância que seria o equivalente a cruzar estados inteiros a pé. Quando a prova terminou na 123ª hora, a comunidade internacional oscilou entre a euforia e o profundo ceticismo. Como atletas com recordes pessoais consideravelmente mais baixos conseguiram dar um salto tão gigantesco de desempenho?

O Veredito de Laz

A resposta não demorou a vir, e veio de forma implacável. Após analisar minuciosamente os vídeos oficiais da própria transmissão da prova, o criador do formato, Lazarus Lake, emitiu um comunicado definitivo: o Biotropika Backyard Ultra estava desqualificado. O motivo? Violações graves das regras de isolamento e ritmo (*pacing*).

No Backyard Ultra, a regra de ouro é o purismo: o atleta deve enfrentar o circuito completamente sozinho. Sua mente contra o relógio. Porém, na Rússia, as imagens revelaram um cenário bem diferente:

  •  Companhia no Percurso: Membros da mídia, fotógrafos, voluntários e equipes de apoio foram flagrados correndo ou caminhando ao lado dos líderes dentro do circuito durante as voltas ativas. Essa presença externa configura *pacing* (ajuda de ritmo), o que é estritamente proibido.
  • Suporte no Meio do Caminho: A organização montou um posto de hidratação na metade do loop. Embora estivesse disponível para todos, a regra exige que qualquer auxílio ou reabastecimento aconteça única e exclusivamente na área de acampamento central, entre as voltas.
  • Interações Proibidas: Houve relatos de carros com caixas de som acompanhando os corredores para dar apoio moral e até a desclassificação de um atleta perto da volta 122 por pegar o celular de uma espectadora para tirar uma foto em movimento — o que viola a proibição de receber objetos externos no circuito.

Para Laz, não houve necessariamente má-fé ou intenção de trapacear por parte dos atletas, mas sim uma falha da organização, que não soube aplicar a rigidez que o esporte exige.

A Postura de Phil Gore

Com a anulação do evento russo, o recorde mundial oficial de 119 horas voltou (no papel) a pertencer ao australiano Phil Gore. No entanto, em um posicionamento recente que rodou as redes sociais, Gore demonstrou o verdadeiro espírito do esporte.

Em vez de comemorar a manutenção do seu título, o australiano preferiu dar o benefício da dúvida aos corredores russos:

"Embora o evento possa não ser mais válido, não há como apagar o que esses atletas conquistaram. (...) Eu sei como é correr tão longe. Eu sei que essas distâncias são possíveis." — Phil Gore

Gore ainda ponderou que grande parte da investigação em cima do evento aconteceu devido ao cenário geopolítico e à reputação da Rússia no esporte, lamentando que o esforço físico brutal de indivíduos tenha sido questionado por questões externas. Ele concluiu dizendo que as regras do Backyard são, por vezes, vagas, e que esse episódio deve servir para trazer mais clareza e profissionalismo para o esporte daqui para frente.

O que Fica de Lição para o Futuro da modalidade?

O desfecho do Biotropika Backyard Ultra nos deixa uma reflexão profunda sobre o crescimento do esporte. À medida que o formato Backyard Ultra deixa de ser um evento de nicho e se torna um fenômeno global com marcas multimilionárias de patrocínio envolvidas, a arbitragem precisa evoluir no mesmo ritmo.

As regras subjetivas ou interpretativas não têm mais espaço quando seres humanos estão levando o próprio corpo a limites biológicos extremos. Dmitry Klimov e Vera Chekalina correram distâncias que a maioria de nós não consegue sequer conceber. O suor foi real, a dor foi real e o desgaste mental foi real. Mas, no esporte de alto rendimento, a linha que separa a glória eterna do esquecimento burocrático é incrivelmente fina.

E você, o que pensa sobre o assunto?

Acredita que Laz agiu certo ao proteger o purismo das regras a todo custo, ou acha que houve rigor excessivo com atletas que entregaram a própria alma na pista?

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