02 de Outubro de 2026 • por Equipe BYU

Douglas Silva: A Leitura e Experiência do Assistente da Backyard Mais Difícil do Brasil

Conversamos com Douglas Silva, o atleta que encarou 17 voltas no terreno casca-grossa de Cajamar.

Sinônimo de constância e resiliência na BYU

Com mais de dois anos dedicados às ultradistâncias e marcas expressivas como 226 km em 24 Horas, Douglas acumula um currículo invejável no formato: 20 voltas na Ultraloucos, 24 voltas em Pedro de Toledo, 26 voltas em Itupeva, 33 voltas (Assistente) na Praia Grande e, agora, 17 voltas como Assistente na duríssima edição de A Lenda em Cajamar. Nesta entrevista, ele detalha o aprendizado com os calçados, a aplicação da sua metodologia FCA e o papel fundamental de correr com respeito ao próprio ritmo.

Entrevista Exclusiva com Douglas Silva

01. Você já conhecia a dinâmica da Backyard Ultra. Em que momento da prova percebeu que a disputa seria decidida no desgaste do terreno e no gerenciamento de danos?

Douglas: A Lenda foi a minha quinta experiência no formato Backyard. Ela nem estava nos meus planos originais, pois a minha preparação estava focada na Spartathlon, na Grécia. Como o projeto da Grécia não se concretizou, decidi alinhar na Lenda de última hora. Cheguei sem treinos específicos de altimetria ou de trail — era a minha primeira vez num percurso tão técnico.

O meu grande erro na prova foi na escolha do calçado. O modelo que encomendei do exterior não chegou a tempo e acabei por usar um Brooks — confortável para longas distâncias em piso plano, mas que rasgou com o impacto do terreno acidentado. Fiquei com duas alternativas inviáveis: um Fila que machucava os meus dedos nas descidas e um Asics de estrada, focado em velocidade, sem qualquer estrutura para piso técnico.

Após 10 voltas, o Brooks cedeu. Troquei para o Asics e ainda rodei bastante tempo, mas as descidas íngremes continuavam a massacrar os meus pés. Daria para continuar e dar mais voltas? Sem dúvida. Porém, o custo seria piorar muito o estado dos meus dedos. Assumi o erro e fiquei com o aprendizado: na vida não existe fracasso — ou acertamos, ou aprendemos.

02 Sendo um atleta experiente no formato, qual foi a sua estratégia nas primeiras voltas em Cajamar? Preferiu poupar energia no trecho técnico ou imprimiu um ritmo forte desde o início?

Douglas: Sou corredor de provas de 24 Horas e agora Backyard Ultra — são os dois formatos em que busco performance. Não sou atleta profissional, tenho os meus negócios e a minha rotina profissional, por isso, quando entro numa Backyard, vou para disputar, dar o meu máximo e ficar entre os primeiros colocados.

A minha estratégia foi me desafiar. Logo na primeira volta fechei próximo dos 40 minutos, a segunda com 39 e a terceira também abaixo dos 40 minutos. Para mim, rodar entre 39 e 45 minutos é o cenário ideal, pois garante um intervalo na base de apoio para me alongar, alimentar e descansar com tranquilidade, em vez de chegar com pouco tempo antes do apito. Estava com excelente nível de energia, cheguei entre os primeiros atletas quase todas as voltas e o meu planejamento inicial funcionou perfeitamente.

03. Quando a noite chega e a arena esvazia, a prova muda. Como foi a interação entre os atletas ao longo do percurso?

Douglas: Em 96% do tempo, prefiro correr sozinho e em absoluto silêncio. Dificilmente uso fones de ouvido; gosto de me concentrar na respiração e no percurso. Para mim, a corrida ultrapassa a parte física ou mental: é um momento de reflexão e busca espiritual, o que costumo chamar de meu momento 'Lech Lecha' — uma expressão em hebraico que significa 'vai para dentro de ti mesmo'.

Por isso, praticamente não rolava conversa nas trilhas. Não era por tática psicológica para poupar energia, mas sim porque cada atleta estava imerso na sua própria jornada interior, na sua estratégia e na sua história. Apenas nas voltas finais acompanhámos o ritmo um do outro no último trecho, simplesmente deixando fluir sem necessidade de palavras.

“É quando deixo tudo de lado e me desenvolvo dessa forma: correr longas distâncias e ter esse tempo a sós comigo mesmo.”

04. O percurso de Cajamar é famoso pelas subidas duras e descidas desafiantes. Como foi enfrentar a trilha após o pôr do sol?

Douglas: A Lenda é uma prova duríssima e a verdadeira dimensão dessa exigência só é compreendida quando se está no terreno. Como não fiz treinos de simulação prévia, enfrentei um desafio 10 vezes maior do que aquilo para que tinha treinado.

A parte técnica fica mais mapeada na mente a partir da segunda ou terceira volta. Eu sabia exatamente o tempo que levaria nos primeiros 1,4 km até à subida mais íngreme e como deveria gerir os trechos de plano no topo. Sabendo que a noite exigiria o dobro de atenção, dividi o trajeto em blocos e cronometrei cada trecho. Assim, mesmo sem olhar para o relógio, sabia exatamente em que ponto do tempo e do percurso eu estava. A escuridão da trilha é muito intensa, mas manter o foco e o ritmo planeado foi a chave para atravessar a noite com segurança.

“É uma experiência que foi muito além do que eu esperava em termos de dificuldade técnica e altimetria, e que agora procuro transportar e vivenciar nos meus treinos”

05. Como ficou a sua logística e a sua gestão de descanso na área de apoio durante a madrugada?

Douglas: Consegui manter uma consistência incrível durante as 17 voltas, chegando sempre abaixo dos 50 minutos. A única exceção foi a volta 16, em que fechei com 53 minutos — a escassos 2 minutos do primeiro apito.

Em termos de energia e privação de sono, a prova foi extremamente tranquila para mim. Já enfrentei a gestão de sono em mais de 10 ocasiões e ainda tinha 'muita lenha para queimar'. O único fator limitante que me tirou da prova foi a dor acumulada nos dedos, provocada pelos calçados inadequados nas descidas. Quando percebi que continuar traria consequências graves, precisei de colocar o ego de lado e tomar uma decisão consciente.

“Vamos voltar para fazer melhor e ir mais longe, corrigindo e aperfeiçoando sempre.”

06. O que passou pela sua cabeça quando decidiu retornar na volta 18 e encerrar a sua participação?

Douglas: Na volta 18, não andei nem 100 metros. Passei o pesqueiro, fiz a curva e parei. Fiquei ali parado durante uns 8 minutos calculando friamente o ROI — o retorno sobre o investimento físico e mental de insistir em mais uma volta.

Ambos estávamos bem e parecia que a prova se estenderia por muitas mais horas. Porém, avaliei a situação: valeria a pena insistir, agravar uma lesão nos pés e comprometer os meus grandes objetivos do ano — como o índice para a Seleção Brasileira de 24 Horas — só por vaidade ou para evitar o rótulo de segundo lugar? A resposta foi clara. A prova já havia cumprido o seu papel como um excelente treino de altimetria e resistência. Deixei o ego de lado, dei meia-volta e saí com a certeza de ter tomado a decisão certa.

07. Comparando com as outras provas do circuito, o percurso de Cajamar realmente justifica o título de Backyard mais difícil do país?

Douglas: Sem dúvida alguma. Comparando todas as edições de Backyard em que já participei, as anteriores são mais acessíveis. Se me pedissem para escolher entre as 33 voltas na praia e as 17 voltas de 'A Lenda', não tenho dúvidas: as 17 voltas aqui foram incomensuravelmente mais difíceis e desgastantes.

A Lenda exige caminhada extremamente dura e técnica, força em subidas duras e extrema atenção nas descidas, principalmente durante a noite. Ela confirma o estatuto de uma das provas mais difíceis do Brasil — e é exatamente por isso que a procuramos, pois o que não nos desafia, não nos transforma.

08. Na sua visão, qual é o erro mais comum entre os atletas iniciantes nas primeiras voltas de uma Backyard?

Douglas: O maior erro é subestimar o formato achando que 6,7 km por hora é um ritmo fácil, ou largar sem uma tática própria e ir 'na onda' do ritmo de outros corredores. Numa Backyard, contexto é rei. Vi atletas a correr forte no início, gastando energia excessiva e batendo frequências cardíacas altíssimas; o resultado foi que quebraram muito cedo.

Para gerir a prova, utilizo o meu método FCA: Fazer (executar o plano inicial), Corrigir (ajustar a tática em tempo real no percurso) e, Aperfeiçoar (levar os aprendizados para a edição seguinte). A Backyard é fácil até se tornar difícil. Respeitar o próprio ritmo e fugir de vaidades é o que garante a longevidade no evento.

09. Para fechar: qual é a mensagem que deixa ao campeão da prova e qual a principal lição de Cajamar?

Douglas: Ao campeão, a minha palavra é de profunda gratidão. Sem a determinação dele em dar mais uma volta, eu não teria alcançado as 17 voltas e não teríamos elevado juntos a marca da prova para 18 horas. Ninguém corre sozinho: a Backyard é você contra si mesmo, mas um atleta só alcança 18 voltas se houver alguém ao seu lado para sustentar até a volta 17.

A grande lição de Cajamar é que, quando achamos que chegámos ao limite, é apenas a mente querendo fraquejar — o corpo ainda tem mais para entregar. A minha filosofia para o esporte e para a vida resume-se aos três 'D's: não duvide, não desanime e não desista. O milagre da superação não pertence a quem merece ou precisa, mas sim a quem não desiste.