Lua: 42 voltas pelo Brasil e uma história em cada chegada
Com 42 voltas pelo Brasil, Lua estabeleceu o recorde sul-americano feminino de Backyard e conta como viveu a conquista ao lado da família e da seleção.
Uma volta além das 41 que eram a referência continental. No Mundial Backyard Ultra de 2026, em Maranguape–CE, Lua completou 42 voltas, aproximadamente 281,7 quilômetros, e estabeleceu o novo recorde sul-americano feminino. A marca anterior pertencia a Adriana, alcançada na Backyard da Moda, em agosto. As duas estiveram na seleção brasileira neste Mundial, em que Lua foi a última mulher de pé do time.
Nauriene Brasiliano Melo Nunes nasceu em Pindoretama, no Ceará, e mora em Paulista, em Pernambuco. Conhecida como Lua, conciliou trabalho, casa e treinos para chegar à seleção. Na prova, contou com o apoio do filho, do enteado e da amiga Rose, que a esperavam a cada chegada.
Nesta conversa com a Backyard Ultra Brasil, ela conta como viveu a passagem para a volta 42, os ajustes durante a prova e a convivência com Adriana. Fala também da própria trajetória e do que a Backyard representa nos seus dias.
Equipe BYU: Quando você lembra desse Mundial, qual é a primeira cena que vem à cabeça?
Lua: É lembrar do que um dia eu fui e onde cheguei. Lembrei da minha infância, que foi muito difícil, das roupas usadas que eu vestia porque minha mãe não tinha condições de comprar novas. E eu estava ali representando meu país, lutando em cada volta.
Lembro do olhar do meu filho e do meu enteado quando eu chegava. Aquele amor, tanto carinho. Só sei que foi lindo. Lembrando disso tudo, eu me emociono, porque não é fácil chegar até onde nós chegamos. Não falo isso só por mim, mas por todos os 15 que estavam ali.
Equipe BYU: Você chegou à seleção depois de completar 40 voltas na Backyard da Moda. Como foi a preparação para o Mundial? Tinha alguma meta em mente?
Lua: Minha preparação para o Mundial não foi a de uma atleta profissional. Eu trabalho, tenho minha casa para cuidar e preciso conciliar tudo. Não tinha patrocínio. Tinha a rua para correr de graça.
Muitas vezes, acordava às três da manhã para treinar antes de começar a trabalhar. Fazia pilates, funcional, natação, bike, fortalecimento e corrida, dividindo os exercícios entre a manhã e a noite.
Eu queria repetir minhas 40 horas e também fazer a minha idade: chegar às 49 horas seria meu presente de aniversário. Mas tive um calo muito grande no pé, que incomodou bastante. E Deus me deu as 42.
Meu filho nunca tinha participado comigo. Ele e meu enteado me esperando na chegada de cada volta fizeram esse Mundial ser mais que especial.

Equipe BYU: O que mudou para você ao vestir a camisa do Brasil e saber que cada volta também contava para a seleção?
Lua: Mudou tudo. Até então, eu era a Lua que corria por mim, pela minha história, pela minha superação. Cada dor era minha, cada volta era minha. Quando vesti a camisa do Brasil, a dor deixou de ser minha.
Na primeira volta com a camisa, chorei emocionada. Corri com medo de decepcionar o Brasil e, principalmente, aqueles que saíram de casa para me ajudar: meu filho, meu enteado e minha amiga. Mas senti um orgulho profundo.
Eu também via o medo, a dor e o cansaço dos meus companheiros. Vestir a camisa do Brasil transformou 42 horas de sofrimento em 42 horas de missão. Gosto de coisas difíceis, de aventura e dessa sensação de dever cumprido.
Equipe BYU: Como sua prova foi se desenrolando? Conta um momento em que precisou ajustar o plano para seguir até o próximo sino.
Lua: Minha prova teve algumas fases. Primeiro, aquela euforia, de querer falar muito — eu gosto muito de falar! Depois, chegou a hora de correr mais séria e, então, de correr com o coração.
Tinha planejado cochilar à noite, mas não consegui. O percurso era mais difícil que o de Santa Cruz, e sobrava pouco tempo para descansar. Precisava me alimentar, me hidratar e tomar banho. Mudei a alimentação e a hidratação ao longo da prova, principalmente com o calor do segundo dia.
Também adaptei as trocas de roupa. Coloquei um short de compressão que ficou confortável e continuei com ele até o final. Na barraca, deixei um banheiro portátil, água e uma cadeira preparados. Meu apoio me ajudava no banho, sentada, sem molhar os pés. Era aproveitar aqueles oito, nove, dez minutos entre as voltas.
Equipe BYU: Quando completou a volta 41 e saiu para a 42, você sabia que estava ultrapassando a melhor marca feminina brasileira? Como viveu esse momento?
Lua: Quando completei as 40 horas, já sabia que, se chegasse às 42, bateria o recorde. Posso dizer que foi o sino mais pesado da minha vida.
Já vinha sofrendo com os calos desde as 37 horas, mas queria chegar às 42. Meu apoio merecia aquela felicidade. Minha amiga e meus dois filhos não estavam ali em vão.
Fazer 41 seria meu recorde pessoal. Mas completar as 42 seria brilhar. Eu sabia da marca da Adriana: em Santa Cruz, eu tinha feito 40 horas e ela, 41.
Ali, senti que tinha quebrado um teto que colocava sobre a minha própria cabeça.
Equipe BYU: Quem estava no seu apoio e qual cuidado ou detalhe entre as voltas fez diferença para você?
Lua: Meu filho, que participou pela primeira vez; meu enteado, que já tinha estado comigo na Backyard de Santa Cruz; e Rose, uma grande amiga com quem treino.
Meu apoio foi minha família. Não foi uma equipe técnica. Foi amor. Estavam comigo 42 horas sem dormir.
O que fez diferença foram os pequenos detalhes de quem ama: saber do que eu precisava beber e comer em cada volta, lembrar do protetor solar, de trocar a meia. Eu ouvia que ia conseguir, que ia dar certo, e isso me motivava. A correria era grande, e eles deram conta de tudo. Só tenho a agradecer.

Equipe BYU: Você e Adriana estiveram na mesma seleção. Como foi essa convivência? Teve alguma conversa ou gesto entre vocês que ficou marcado?
Lua: Adriana é gigante, uma atleta que eu já admirava. Já nos conhecíamos de outras provas. Quando cheguei, abracei e falei: “Vamos, guerreira, precisamos colocar esses homens para dormir!”.
Assim como eu, ela também é mãe, e a gente sabe das dificuldades para treinar. Ali estávamos no mesmo barco, vestidas com a camisa do Brasil, lutando pelo mesmo propósito.
Durante a semana, treino sozinha. Aos sábados, procuro um amigo ou outro para treinar comigo.
Levo Adriana para sempre no coração, como parte desse Mundial e como uma mulher batalhadora, que mostra que a gente também pode estar ali. Lugar de mulher é onde a mulher quiser.

Equipe BYU: O que essas 42 voltas representam para você? E o que gostaria de dizer a uma mulher que tem vontade de experimentar a Backyard, mas ainda não se imagina naquele quintal?
Lua: Posso dizer que cada volta foi uma vida. Da primeira à décima, aquela Lua menina que sonhava em correr, mas achava que não podia. Da décima à vigésima, a Lua mãe, que aprendeu a cuidar mesmo exausta. Depois, a Lua que já quis desistir e, dessa vez, não desistiu. Das 30 às 42, a Lua que nasceu de novo, só com o coração.
Para as mulheres que têm vontade, mas acham que esse quintal não é para elas, digo: vem, esse quintal é nosso. Todo mundo tem medo, e todo mundo te aplaude quando você volta.
Podem contar comigo. Se eu estiver na prova, faço questão de correr ao lado de vocês, ajudando. O mais importante é fazer a sua primeira volta.
Equipe BYU: Depois desse Mundial, o que a Backyard representa nos seus dias?
Lua: A Backyard é meu modo de viver. Depois de 42 horas correndo em círculo, voltando sempre para o mesmo ponto, entendi que a vida é como uma Backyard. Não preciso ser a mais rápida. Não é sobre largar na frente, é sobre continuar voltando. No treino, no trabalho, na dor, na saudade.
Ninguém faz 42 horas sozinho. Ninguém sonha sozinho. Ninguém faz a vida sozinho. Quem me carregou foram três pessoas que ficaram ali me ajudando.
Hoje, a Backyard representa fé, resistência e um amor que nunca abandona.
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