11 de Outubro de 2026 • por Equipe BYU

Guilherme Santos: Campeão da Backyard Ultra Mais Difícil do Brasil

Conversamos com o Last One Standing d'A Lenda que cravou 18 voltas e superou 4.000m D+ em Cajamar

Recorde Superado em Cajamar

Conquistar o título de Last One Standing no quintal d'A Lenda, em Cajamar, exigiu mais do que preparo físico: demandou uma leitura de prova impecável, gestão de tempo cirúrgica e frieza mental do primeiro ao último apito. Nesta conversa com o HUB Backyard Ultra Brasil, Guilherme conta os detalhes da sua estratégia de parciais na montanha, a rotina de alimentação a cada volta, a escolha decisiva do tênis com cravos e as histórias místicas da trilha durante a madrugada.

Entrevista Exclusiva com Guilherme Santos

01. Dizem que a primeira volta da Backyard Ultra define o ritmo. Quando você deu os primeiros passos no quintal, o que percebeu e qual foi o primeiro ajuste tático feito antes mesmo de fechar os primeiros 6,7 km?

Guilherme: Os meus principais ajustes começaram uma ou duas semanas antes do evento. O Leandro e o Marquito, meus amigos e companheiros de prova, foram até Cajamar para fazer o reconhecimento do percurso e compartilharam comigo os pontos mais difíceis e o tempo ideal estimado para cada volta. Como não pude participar desse treino simulado, fui absorvendo todas as informações deles. Isso foi fundamental para chegar na linha de partida já sabendo exatamente o que encontraria e como deveria conduzir cada quilômetro.

02. Cajamar entregou o que prometeu: subidas intermináveis, descidas técnicas e um calor intenso. Como você gerenciava a altimetria entre a subida da montanha e o retorno?

Guilherme: Na segunda volta, já parecia que o sol estava 'três para cada um'. O calor castigou bastante e fez muitos atletas abandonarem cedo. A minha estratégia era muito clara e cirúrgica: chegar ao início da subida com cerca de 9 minutos e alcançar o cume entre 23 e 24 minutos. Depois disso, era administrar a descida e completar a volta dentro do tempo. O single track técnico na descida é um dos meus pontos fortes, então aproveitei essa parte para fluir de forma natural.

03. Com a chuva acumulada dos dias anteriores, a descida em single track exigia estabilização constante. Como foi a sua gestão do terreno escorregadio a cada passada?

Guilherme: Como a descida em single track é o terreno onde me sinto mais confortável, consegui desenvolver o ritmo sem ficar lutando contra a trilha ou gastando energia desnecessária. O segredo ali foi usar a técnica a meu favor: confiar na aderência do calçado certo, manter o corpo solto e deixar a gravidade trabalhar nos trechos mais travados, economizando musculatura para as subidas.

04. Superar 4.000m D+ em 18 voltas significa acumular mais de 220m de ganho por loop. Em que momento essa altimetria deixou de ser um número no GPS e virou um peso nas pernas?

Guilherme: Estou acostumado a treinar e correr em montanha praticamente todos os finais de semana, frequentemente com altimetria acumulada elevada. Por isso, já fui para Cajamar consciente de que enfrentaria subidas duríssimas durante muitas horas. Entrei na prova preparado e com a mentalidade pronta para ir até segunda-feira, se fosse necessário.

05. Em trechos de single track, o ritmo muitas vezes é ditado por quem está na frente. Você preferiu liderar ou usou outros atletas como referência no início?

Guilherme: No começo, deixei o pessoal liderar e fui apenas acompanhando o ritmo. Em várias subidas, fiz o percurso lado a lado com outros atletas, como o Leandro, o Marquito e a Jannicken (Last Woman Standing). Nas descidas, porém, eu assumia o meu próprio ritmo. Era o trecho em que estava mais à vontade e conseguia desenvolver o percurso com mais naturalidade.

06. Com o terreno tão exigente, o tempo de transição na arena diminui. Quanto tempo sobrava na barraca e como foi a sua rotina de descanso?

Guilherme: Eu tinha uma média de 15 minutos de descanso por volta. Em alguns momentos, achava até tempo demais, porque ficar muito tempo parado na Backyard também pode esfriar a musculatura e prejudicar o retorno. Na maioria das voltas, eu já estava pronto na área de largada antes do último apito, sem aquela sensação de estar sempre correndo contra o relógio.

07. A noite na Backyard traz um silêncio único e pensamentos marcantes. Como foi encarar o quintal de lanterna ligada e o que ficou registrado na sua memória durante a madrugada?

Guilherme: Eu não via a hora de anoitecer! Gosto muito de correr à noite e sinto que o meu ritmo flui melhor nesse período. Mas teve uma coisa muito marcante: durante toda a madrugada, sempre que eu entrava no single track da descida, um curiango aparecia cantando exatamente no mesmo lugar. E, em todas as voltas, ele continuava lá, firme. Virou quase uma referência da trilha.

08. Manter o corpo estabilizado consome muita energia. Como ficou o seu estômago e qual foi a tática de nutrição para não quebrar?

Guilherme: O estômago respondeu perfeitamente do início ao fim. A minha estratégia foi ingerir uma fonte de carboidrato diferente a cada volta. Essa variação constante evitou o enjoo e não sobrecarregou o organismo, permitindo que a alimentação sólida e líquida entrasse sem pesar.

09. Conforme a arena foi esvaziando e restaram apenas os últimos atletas em pé, houve alguma mudança na sua chave mental?

Guilherme: Não. A minha postura foi exatamente a mesma do primeiro ao último minuto. Eu sabia qual era o meu objetivo e mantive o foco nisso. Além disso, como o percurso em single track naturalmente separa os corredores, eu já vinha rodando sozinho em vários momentos da prova. Foi só dar continuidade ao plano volta após volta.

10. Para quem olha de fora, A Lenda parece assustadora. O que é mito e o que é realidade sobre correr em Cajamar?

Guilherme: A realidade é uma só: a prova é difícil de verdade e vai ficando mais pesada a cada volta. Não é apenas a altimetria do GPS; é o piso técnico que exige atenção constante, as descidas que castigam as articulações e o sol que cobra o seu preço. Quanto mais você corre, mais a conta fica cara.

11. A escolha do tênis pode decidir uma Backyard. Um calçado com cravos é indispensável nesse tipo de terreno?

Guilherme: Em Cajamar, um tênis com cravos é absolutamente indispensável. O terreno estava muito técnico e escorregadio. Vi atletas usando tênis de sola mais lisa que sofreram demais, caindo e perdendo tempo porque não conseguiam tração nem para subir nem para descer. Ter o equipamento adequado faz toda a diferença.

12. Se um atleta te pedisse apenas um conselho para se inscrever n'A Lenda no ano que vem, qual seria?

Guilherme: Treine com antecedência e mantenha a constância. Não adianta tentar se preparar de última hora ou em poucas semanas antes da prova. É preciso construir uma base sólida de montanha e endurance, porque o percurso vai cobrando mais a cada volta. E vá preparado: a prova é verdadeiramente punk!