12 de Outubro de 2026 • por Equipe BYU

Minuto Ultra - Outubro de 2026

Sejam bem-vindos a mais uma edição do Minuto Ultra, a coluna do HUB Backyard Ultra Brasil dedicada a olhar além das classificações, interpretar os números e registrar as histórias que ajudam a construir a modalidade no país.

Setembro de 2026 levou o circuito brasileiro a dois cenários distintos. Primeiro, a Marauí Backyard Ultra, em Timon, no Maranhão. Duas semanas depois, A Lenda, em Cajamar, São Paulo.

As duas Backyards terminaram com vencedores completando 18 voltas, aproximadamente 120,7 quilômetros.

A coincidência chama a atenção. Mas também nos convida a fazer uma pergunta: quando dois atletas percorrem a mesma distância em uma Backyard Ultra, estamos realmente falando do mesmo desafio?

1. Marauí: 18 voltas no Maranhão

No dia 11 de setembro, Timon recebeu a Marauí Backyard Ultra. A prova reuniu 27 participantes e terminou com Cícero Veronica Santos como Último de Pé, após completar 18 voltas. Marcelo da Silva Sousa foi o assistente, encerrando sua participação com 17 voltas.

Na análise de percurso disponível no HUB, a Marauí apresenta aproximadamente 72 metros de ganho de elevação positivo por volta e IDT igual a zero. O índice indica baixa exigência dentro dos critérios altimétricos atualmente considerados pelo sistema. Isso, entretanto, não significa ausência de dificuldade.

Na Backyard Ultra, a repetição é parte central do desafio. Mesmo em percursos com variações altimétricas relativamente suaves, o atleta precisa administrar alimentação, hidratação, recuperação e desgaste muscular durante sucessivas largadas.

Em 18 voltas, são mais de 120 quilômetros de deslocamento e muitas oportunidades para pequenas decisões influenciarem o resultado.

2. A Lenda: a Backyard mais difícil do Brasil

No dia 26 de setembro, 43 atletas participaram da A Lenda Backyard Ultra 2026, em Cajamar, São Paulo.

Guilherme Santos conquistou a vitória com 18 voltas, totalizando 120,7 quilômetros. Douglas Silva foi o assistente, com 17 voltas.

Entre as mulheres, Jannicken completou 14 voltas, aproximadamente 93,9 quilômetros, tornando-se a última mulher de pé.

A edição também estabeleceu um novo recorde do quintal. O resultado de Guilherme ganhou ainda mais significado pelas características do percurso de Cajamar, que reúne desafios de relevo e trechos de trilha.

Mas o resultado final conta apenas parte da história. Na entrevista com Douglas Silva, publicada pelo HUB em outubro, o assistente apresenta sua experiência, suas decisões estratégicas e os aprendizados relacionados ao equipamento e ao gerenciamento do esforço.

A entrevista com Jannicken Hoftun oferece outra perspectiva: a adaptação de uma atleta experiente em provas de montanha ao formato de largadas sucessivas da Backyard Ultra.

Em seu relato, Jannicken explica como o desgaste das últimas voltas reduziu seu tempo de recuperação e como a decisão de encerrar a participação envolveu fatores que ultrapassam o condicionamento físico.

São histórias que ajudam a compreender aquilo que uma tabela de resultados não consegue mostrar.

3. Duas provas, 18 voltas: o que podemos comparar?

Os resultados apresentam uma coincidência interessante:

Os dois vencedores alcançaram a mesma distância, mas essa igualdade numérica não significa que as exigências físicas e técnicas tenham sido equivalentes. É aqui que a análise de percurso ganha importância.

A Backyard Ultra possui uma distância padronizada de 6,706 quilômetros por volta. Entretanto, a distribuição das subidas e descidas, a natureza do terreno, as condições climáticas e outros fatores podem alterar significativamente a experiência dos participantes.

Portanto, comparar apenas o número de voltas não permite estabelecer qual atleta apresentou o melhor desempenho relativo.

O resultado precisa ser interpretado dentro do contexto de cada prova.

4. IDT: o que os números mostram e o que ainda não conseguimos medir

O HUB Backyard Ultra Brasil desenvolveu o Índice de Dificuldade Técnica (IDT) para oferecer uma análise mais detalhada dos percursos.

A ferramenta utiliza informações altimétricas para identificar características de subidas, descidas e variações de inclinação.

No entanto, existe uma limitação importante.

O IDT atual ainda não representa toda a dificuldade técnica de um percurso.

Entre os fatores que ainda não são incorporados integralmente ao índice estão:

  • Tipo de piso, como asfalto, terra batida, cascalho ou pedras.
  • Presença de raízes, erosões e obstáculos.
  • Trechos de single track.
  • Curvas fechadas e mudanças frequentes de direção.
  • Irregularidades que exigem maior atenção à pisada.

Essas características podem modificar o esforço necessário para completar uma volta, mesmo quando dois percursos apresentam perfis altimétricos semelhantes.

Uma trilha com pedras e raízes, por exemplo, pode exigir maior concentração, estabilidade e controle de movimento do que uma estrada regular com ganho de elevação parecido.

Por isso, o IDT deve ser interpretado como um indicador da exigência associada ao relevo, e não como uma medida definitiva da dificuldade total da prova.

Essa distinção é especialmente importante quando comparamos quintais como Marauí e A Lenda.

O índice oferece uma referência objetiva sobre determinadas características dos percursos, mas ainda não permite quantificar todas as diferenças entre eles.

O desenvolvimento de novas variáveis poderá ampliar essa análise no futuro.

Para conhecer a metodologia atual, consulte o artigo Como funciona o Índice de Dificuldade Técnica?

5. As histórias que complementam os resultados

Um dos caminhos que o HUB vem desenvolvendo é aproximar os números das experiências dos atletas.

As entrevistas publicadas no início de outubro sobre A Lenda mostram como um mesmo evento pode ser vivido de maneiras muito diferentes.

Douglas, atleta experiente no formato, apresenta uma leitura construída ao longo de diversas Backyard Ultras.

Jannicken, estreante na modalidade, traz a bagagem das ultramaratonas de montanha e descreve sua adaptação à necessidade de interromper e reiniciar o esforço a cada hora.

Essas duas perspectivas ajudam a entender que não existe uma estratégia universal para enfrentar uma Backyard Ultra.

O que funciona para um atleta pode não funcionar para outro. E aquilo que parece adequado nas primeiras voltas pode precisar ser revisto conforme o desgaste se acumula.

Embora essas entrevistas tenham sido publicadas em outubro, elas registram experiências da prova realizada em setembro e complementam nossa análise do mês.

6. Setembro fica registrado

Duas provas, dois estados e vencedores com a mesma marca de 18 voltas.

Setembro mostrou como resultados aparentemente semelhantes podem esconder desafios e histórias diferentes.

A Marauí e A Lenda acrescentaram novos capítulos ao calendário brasileiro, enquanto os dados dos percursos e os relatos dos atletas ofereceram oportunidades de compreender melhor as particularidades de cada quintal.

Esse é o propósito do Minuto Ultra: reunir informações, observar padrões, reconhecer limitações e construir uma memória cada vez mais consistente da Backyard Ultra no Brasil.

Seguiremos acompanhando os acontecimentos do circuito, os resultados, as histórias e a evolução das ferramentas de análise do HUB.

O Minuto Ultra deste mês fica por aqui.

Bons treinos, excelentes provas, é noix e... fui!